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Artigo Série - "A conveniência da cultura". Parte 1- Cultura como recurso


Artigo Série - "A conveniência da cultura" - Cultura como recurso ou discurso?

É uma narrativa acadêmica divida em três partes que incita questionamentos de como se entende cultura e como é feita a sua utilização no recorte específico abordado nessa sequência. Para elucidar este cenário foi utilizado o autor George Yúdice, que traça um caminho peculiar sobre as nuances da cultura. Não obstante, a proposta dessa série de artigos não se resume em sanar quaisquer lacunas abertas durante essas explanações, mas sim de criar um espaço para o diálogo.

Foto: Luiz Crepaldi

Parte 1 - Cultura como recurso

O autor Yúdice (2006), no livro A conveniência da cultura, retrata a expansão da cultura como forma abrangente e migratória, conseguindo alcançar as esferas políticas e econômicas. Invariavelmente, e quase concomitante a perda do sentido da noção usual da cultura e seus desdobramentos e práticas, “O papel da cultura expandiu-se como nunca para as esferas políticas e econômicas, ao mesmo tempo que as noções convencionais de cultura se esvaziaram muito” (Yúdice, 2006, p 25).

A cultura neste caso, é identificada como a cultura da globalização acelerada, no qual empobrece seu real valor, caracterizando-a meramente como um recurso. Mesmo por uma suposição benéfica, o autor relata a cultura como um mecanismo para progresso sociopolítico e econômico, não obstante a fim real de melhoria a respeito de cidadania.

Gostaria de frisar desde já é que a cultura está sendo crescentemente dirigida como um recurso para a melhoria sociopolítica e econômica, ou seja, para aumentar sua participação nessa era de envolvimento político decadente de conflitos acerca da cidadania. (Young apud Yúdice, 2006, p 25).

Sob outra perspectiva, mesmo dispondo a cultura como argumento para melhoria sociopolítica e econômica sua distribuição mundial no comércio de bens simbólicos como filmes, programas de televisão, música, turismo e outros, acarreta em um protagonismo positivo para à esfera cultural, Yúdice (2006).

Yúdice (2006), relaciona a utilização da cultura como mediador social que desde os séculos XIX e XX, é adotada como forma disciplinar entrelaçada na governabilidade. Similarmente, enquadrada como melhoria ideológica e comportamental a cultura passa a ter caráter qualitativo de avaliação em teor de valor humano que concomitante configura um desenvolvimento positivo de conduta na sociedade ou grupo.

Do mesmo modo, as ramificações de uma cultura sendo ela a própria arte proveniente que descreve o grupo, ou a produção de bens simbólicos e culturais, se tornam uma válvula para exteriorizar suas crenças e posicionamento perante ao mundo, o que proporciona o melhoramento da condição social. Contudo, o autor rebate a questão da utilização da cultura e como, não obstante ao seu valor real.

Hoje em dia é quase impossível encontrar declarações públicas que não arregimentem a instrumentalização da arte e da cultura ora para melhorar as condições sociais, como a criação de tolerância multicultural e a participação cívica através de defesas como as da UNESCO pela cidadania cultural e por direitos culturais, ora para estimular o crescimento econômico através de projetos de desenvolvimento cultural urbano e a concomitante proliferação de museus para o turismo cultural, culminados pelo crescente números de franquias de Guggenheim. (Yúdice, 2006, p 27).

Para o autor, em via de regra, a globalização pluralizou a proximidade entre as comunidades e diferentes povos, propiciando as migrações, e problematizando a utilização da cultura como meios em práticas nacionais, mesmo existindo a defesa da centralidade da cultura para solução de problemas sociais, como criação de empregos, contribuição em redução de despesas e equilíbrio do capitalismo.

Uma vez que todos os atores da esfera cultural se prenderam a essa estratégia, a cultura não é mais experimentada, valorizada ou compreendida como transcendente. E enquanto esse for o caso, os apelos à cultura não estarão mais ligados a essa estratégia. As guerras culturais, por exemplo, adquirem a forma que tomam num contexto em que a arte e a cultura são vistas como fundamentalmente interessadas. (Yúdice, 2006, p 28 e 29).

O interesse vital pela arte e cultura rotulada como empreendimento rentável ressaltou a conversadores a exercerem favoritismo e influência sobre programas de direitos, redistribuição de recursos e reconhecimento, no caso dos grupos caracterizados pelos mesmo como marginalizados, prevendo a incapacidade de organização de grupos como de minorias e LGBT, culminando em um julgamento precoce, negativo e degenerativo. (Yúdice, 2006).

Os conservadores, por outro lado viram essas diferenças como incapacidades ou falhas morais (por exemplo, a “cultura da pobreza” atribuída a minorias raciais ou o libertinismo das preferências e práticas sexuais de gays e lésbicas) que tornaram esses grupos desqualificados para assumir recursos públicos. (Yúdice, 2006, p 29).

Considerações finais

Resumidamente, pode-se entender a cultura como uma forma expansiva e migratória que alcança as esferas políticas e econômicas e por este fator modifica o sentido da noção convencional da cultura e suas ramificações na prática. Um ponto que merece um olhar mais aprofundado é a identificação da cultura acelerada a partir da proliferação da globalização, a mesma neste momento passa a ser enquadrada mais como um recurso econômico e rentável do que os valores intrínsecos de sua natureza. Nessa continuidade a cultura similarmente é caracterizado como um mecanismo de progresso político e econômico, é indispensável que a este ponto se atente a cultura utilizada como recurso e para gerar renda.

Referências:

YÚDICE, George. A conveniência da cultura: usos da cultura na era global. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006. 615 p.

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