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  • Cesar Dias

Artigo - Dança (s) um recorte histórico


foto: Afreaka - Danças com máscaras - retirada da internet

Em 1964 para o autor Luís Ellmerich, correlatado com a evolução da dança a mesma era considera apenas como movimentos ordenados e sem muita maestria que concebia somente uma pulsação rítmica. A dança acontecia meramente, por ocorrência biológica, dirigida unicamente pela respiração e o controle dos movimentos pelas espécies. Neste sentido, a dança para o autor não se restringe apenas aos seres humanos, para ele os animais igualmente conseguiam/conseguem expressar movimentos coreografados.

A dança, como movimento ordenado e rítmico, tem por base as manifestações e a pulsação biológica dos seres humanos e animais. São a respiração e a pulsação que dirigem os movimentos. O avestruz tem fama de “bailarino”; subitamente se senta, abre as asas e ritmicamente balança o corpo para frente e para trás. Os tangarás (ave da família dos Piprides) executam verdadeiros movimentos coreografados. (Ellmerich, 1964, p 13).

O contexto citado acima, refere-se a dança em um cenário primitivo caracterizado por Ellmerich (1964), a afirmação do autor relaciona-se a ideia da dança nos primórdios da humanidade, “Portanto, não é exagero dizer que a dança existe desde os primórdios da humanidade: simples manifestação rítmica, a princípio, motivada por impulsos religiosos, eróticos, bélicos, fúnebres etc.” (Ellmerich, 1964, p 14).

foto: Dança primitiva - retirado da internet

Curt Sachs (1881-1959), demasiadamente citado na narrativa “Historia Universal da Dança” de Ellmerich, constitui uma configuração evolutiva da dança nos primórdios pré-históricos, sendo estipulada na seguinte concepção: Danças circulares sem contato corporal entre os participantes, Danças de imitação animal, Danças convulsivas, Danças em serpentinas, Danças eróticas, Danças em círculo duplo, Danças funerárias, Danças com máscaras, Danças aos pares (casal), Danças em diversos círculos, Danças em que homens e mulheres se colocam em linhas opostas, Danças de pares mistos, Danças de pares abraçados, Danças de ventre. (Sachs apud Ellmerich, 1964, p 14).

foto: Danças Fúnebres - retirado da internet

Se por uma perspectiva evolutiva Sachs (1881-1959), em sua narrativa estabeleceu a estrutura acima para sustentar seu posicionamento em relação a evolução da dança “pré-histórica”, o escritor e musicólogo Carl Engel (1883-1944), separou as danças em três grupos distintos não somente pelo ângulo cronológico, mas sim pelas características que as manifestações expressavam:

Danças religiosas, para adorar ou aplacar a divindade, ou excitar o êxtase espiritual dos bailarinos.

Danças guerreiras, para intimidar o inimigo ou incutir uma maior agressividade nos bailarinos.

Danças profanas, para fomentar as relações sexuais ou incitar paixões entre bailarinos. (Engel apud Ellmerich, 1964, p 14).

Na Idade Média, a conjuntura a cima já se apresentava como danças populares, por mais que se encontrassem vestígios pertencentes as “danças primitivas”, neste período o cristianismo já conseguia enfraquecer um pouco as vertentes pagãs, mas não dizimar as características por completamente, “O cristianismo conseguiu atenuar, mas não apagar completamente o sentido pagão dessas danças. ” (Ellmerich, 1964, p 21).

foto: Danças circulares - retirado da internet

Ainda nesse contexto, por motivos separatistas, a dança passou por uma reorganização diferentemente da composição de Engel (1883-1944), a reestruturação ocorreu “Na rigorosa divisão de classes que reina na Idade Média distinguem-se quatro categorias de danças” com a reformulação o enquadramento por tais motivações ficou como; “Danças campestres (geralmente de roda cantada ou de saltos), Danças de artesãos, Danças burguesas e eróticas, Danças da corte e da nobreza (lenta e disciplinadas). ” (Ellmerich, 1964, p 21).

foto: Ballo - Francesco Guardi

Para Ellmerich (1964), o princípio do Renascimento impulsionou novos rumos para as artes e com ele novas formas de expressões e possibilidades. Os elementos para as variações foram adquiridos a partir da divisão de classes entre os camponeses e nobres, tais desdobramentos levaram a novas formas de entretenimento, uma delas acarretou no surgimento da execução pantomímica o “ballo”, e por consequência dessas transições e mutações configurou-se o “ballet“, que começa a desenvolver-se, não é mais do que uma dança mímica de estilo mais elevado.”(Ellmerich, 1964, p22).

foto: M. Logvinov - 1º Ato - Adágio da Rosa Divulgação

Enquanto as transformações e reorganizações da dança tentam explicar os processos evolutivos que instauraram uma linha cronológica, Rengel e Mommensohn (1992) descrevem a dança como um recurso para autoconhecimento, nesse sentido presume-se que a evolução da dança aconteceu devido a processos de relação, interação, experiência e trocas entre os praticantes que resultou em variações de estilos, contextos e danças.

A dança, enquanto processo de autoconhecimento (do corpo, de seus limites e de suas possibilidades) e instrumento de efetivação das relações sociais, leva o indivíduo a experimentar novas possibilidades no plano do exercício de criação e de integração de um grupo (Rengel e Mommensohn, 1992, p 102).

Contudo, no Brasil a dança principiou-se com os habitantes primitivos que aqui viviam, dos naturais desse pais continental, os índios, Ellmerich (1964). Obviamente que a dança tratada nessa época diferentemente dos movimentos separatistas citado acima, estão relacionadas somente sob a perspectiva da cultura indígena, o autor cita a classificação de Luiz Heitor (1905-1992) para salientar o agrupamento dessas danças.

foto: Danças indígenas - Kahê-Tuagê - retirado da internet

Rituais – 1) De fundo puramente religioso ou ligadas às diversas cerimônias que marcam a evolução da vida individual e do grupo social, 2) Guerreiras ,3) Venatórias (de caça), 4) Funerárias, 5) Básicas. Recreativas – 1) Coletivas ou com numerosos participantes. 2) Individuais ou com número restrito de participantes. De acordo com a disposição e os movimentos coreográficos, elas podem ser dividas como se segue: 1) Roda – os dançarinos lado a lado, com a frente voltada para o círculo; uns atrás dos outros, individualmente ou aos pares, fechando o círculo, 2) Cordão ou fila, 3) Grupos opostos, 4) Saltatórias, 5) Imitativas. (Heitor apud Ellmerich, 1964, p 94).

Evidentemente que as expressões de danças populares do Brasil não são provenientes apenas das danças indígenas, a cultura africana igualmente colaborou fortemente para a solidificação das expressões brasileira. A música e a dança africana foram elementos imprescindíveis para arte popular brasileira destacando-se as culturas, “Sudanesa (Ioruba, Nagõ, Gêge etc.) e a Bantu, trazidas por intermédio dos negros da Angola, Congo e Moçambique. ” (Ellmerich, 1964, p 91).

foto: Danças africanas - Zulu - retirado da internet

Do mesmo modo que a dança e a música são coeficientes essenciais nos rituais afro-brasileiros é de grande importância ressaltar alguns princípios, “Esses cultos fetichistas – num sincretismo afro-católico-espírita – todos mais ou menos semelhantes no conteúdo religioso e no aspecto ritual, têm diversas denominações. “ (Ellmerich, 1964, p 91). Segundo o autor, essas cerimônias possuíram nomenclaturas diferentes devido aos lugares que se desenvolveram.

De acordo com as culturas africanas de origem: MACUMBA, no Rio e em São Paulo, CANDOMBLÉ, na Bahia, XANGÔ, no Recife e em Alagoas TAMBOR-DE-MINA ou TAMBOR-DE-CRIOULO, no Maranhão, BABASSUÊ ou BABAGUÊ, no Pará, e BATUQUE, no Rio Grande do Sul. Esses nomes também se referem aos próprios locais onde se realizam os cultos. Os candomblés baianos e os xangôs pernambucanos são essencialmente de origem gêge-nagô, trazidos por negros de Daomé e Ioruba. Orixá é o nome das divindades ou santos. Oxalá ou Orixalá é o pai de todos os orixás: identifica-se com o Senhor do Bonfim, com Jesus Cristo ou com o Divino Espírito Santo. Dá preferência a cor branca. (Ellmerich, 1964, p 91).

foto: Vanessa Arruda - Candomblé

A dança é uma constante variação que se modula diferentemente para cada época ou grupo, independentemente da ideologia da expressão artística, mesmo sendo movimentos ordenados e rítmicos para Ellmerich (1964), religiosos ou profanos, indígena ou africano ou igualmente um apunhado de tudo para Rengel e Mommensohn (1992) dança é uma característica lúdica posta em ação, e que por meio da energia física que transcende, o indivíduo modifica a sua relação com o mundo, a partir do domínio e a compreensão do corpo como um canal que comunica e se harmoniza com um todo.

Dança moderna já abriu espaço para a Dança Contemporânea, a grande indagação é, a dança contemporânea evoluirá para o que? Ela irá se reinventar? Na era global e nas simbioses do passado, presente e as tecnologias, onde e como se enquadrará a próxima evolução da dança. Será que a dança contemporânea já cumpriu a sua meta, ou ainda somos incapazes de realmente entender e compreender o seu real proposito para a arte da dança? Para Ellmerich, lá em 1964 a dança já era entendida como um grande ciclo que se renovava constantemente que segue até os dias de hoje.

foto: Alex Hermes - Dança moderna - Lamentation (Martha Graham)

Porventura, o âmago da questão seja que a dança já atingiu o seu auge (um mero pensamento) e que neste momento, possivelmente, o ser humano que necessita evoluir-se para entender tudo e toda a história da dança em um quadro geral.

foto: Dança contemporânea - retirado da internet

Referências:

ELLMERICH, Luís. HISTÓRIA DA DANÇA. 1964. Editora Boa Leitura.

MOMMENSOHN, Maria; RENGEL, Lenira Peral. CORPO E CONHECIMENTO: Dança Educativa: Publicação: Série Ideias n. 10. São Paulo: FDE, 1992.

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