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  • Cesar Dias

Entrevista - Daniela Severian


O que é a dança? Qual o maior significado que ela nos revela? Por vezes uma vontade

imensurável e tangível de alcançar o mundo ou abraçá-lo da forma mais totalizante, porém singular, do anseio de esforçar-se em encontrar o brilho dos sonhos refletidos nas centenas de olhares na platéia.

A pequena menina logo se tornou notável - obviamente - graças aos seus esforços e seus grandes mestres como Camilla Pupa, Jane Blauth e Ismael Guiser que a moldaram e lapidaram o balé em seus músculos, Ruth Rachou e Lori Belilove foram essenciais na preciosidade e ensinamentos das técnicas contemporâneas de Graham e Duncan. Música, Severian estudou no Instituto Normal de Música Mieko Miaciro e atuação no Conservatório de Artes Dramáticas Emilio Fontana.

Porventura, a dança seria algo além da decodificação perfeita dos passos de ballet ou das torções invertebradas da dança contemporânea. Mas o que isso tem a ver com uma menina que estudou dança na Selva de Pedras como tantas outras? Tudo. Daniela Severian, ainda sem saber, ao entrar pela primeira vez na sala de balé clássico já traçava seu caminho não apenas para alcançar o mundo, mas sim para escrever o seu nome nele.

Uma carreira fadada ao sucesso iminente, suas primeiras premiações foram o “Primeiro Prêmio” no Encontro Nacional de Dança – ENDA em São Paulo, no Festival de Dança de Joinville em Santa Catarina e no Concurso Nacional de Ballet e Coreografia – C.B.D.D. no Rio de Janeiro. Foi ganhadora da “Medalha de Prata” no Seminário de Dança de Brasília, “Medalha de Bronze” no 1° Kwanju International Ballet Competition na Koréia e o “Primeiro Prêmio” e a “Medalha de Ouro” no Septième Concours de Danse de Paris na França.

 foto: Antonin Michna - Daniela Severian

Daniela Severian similarmente conquistou títulos como: “Melhor Bailarina Clássica” no Concurso Nacional de Dança e Coreografia – Rio de Janeiro; “Bailarina Revelação” no Festival de Dança de Joinville - Santa Catarina; “Personalidade do Ano” por meio de investigação realizada entre personalidades do meio da Dança – São Paulo; e “A Melhor Bailarina” (escolhida pelo público entre renomadas estrelas internacionais da atualidade) na Gala des Etoíles – Budapeste, Hungria.

Tamanha experiência se deve aos grandes esforços e aprendizados da brasileira que outrora desbravou companhias mundo afora como primeira bailarina. Com exclusividade, Severian gentilmente cedeu para este site uma entrevista sobre incentivo, desdobramentos e bailarinos criadores.

Para uma direção artística é viável incentivar bailarinos que queiram coreografar? Por quê?

Ao meu ver, o exercício coreográfico para bailarinos integrantes de uma companhia precisa sim do incentivo e interesse por parte de uma direção artística. A experiência dos bailarinos em outros âmbitos de uma produção artística como: a criação coreográfica; estar a frente de ensaios; a criação de figurinos; etc, enriquece o artista.

Ensina-o a ver o trabalho por outras perspectivas, além de oferecer possibilidades de uma prévia experiência para uma possível transição profissional, bem como dá a possibilidade de talentos descobrirem suas habilidades. Este incentivo também pode ser visto como um apoio ao desenvolvimento da própria dança. Não fosse o apoio aos bailarinos em Stuttgart para que coreografassem, talvez não repercutissem nomes como William Forshyte, Uwe Scholz, Heinz Spörli, Christian Spuck, Erick Gauthier, entre outros. 

No entanto, faz-se necessário atentar para alguns pontos: Para uma companhia, muitas vezes, o cumprimento da agenda, a realização com qualidade de um repertório amplo, as obrigações com os patrocinadores podem não permitir que o espaço para este apoio seja tão facilmente realizável.

Você acha necessário que as companhias tenham espaços que possibilitem e exercitem seus bailarinos a coreografar?

Acho que este pode vir a ser um ideal a se perseguir. A criatividade é uma habilidade humana que deve e precisa ser desenvolvida e praticada. Segundo o educacionalista Ken Robinson a criatividade é a chave para o desenvolvimento do indivíduo e das organizações (Robinson, 2012).

Porém as companhias de dança no Brasil ainda têm o contínuo e prioritário objetivo de simplesmente sobreviver, o que de alguma maneira acaba obrigando que se deixe o tópico do espaço coreográfico em segundo plano.  

Em sua vasta experiência em companhias europeias, em sua percepção, na Europa existe abertura maior para criadores emergentes?

A minha vivência de 20 anos na Europa me demonstrou que a educação e a cultura têm maior apoio e também maior interesse por parte dos Europeus quando comparado ao Brasil. Isto se nota ao observarmos que, muitas vezes,  mesmo pequenas cidades têm seu teatro com sua orquestra estável, seu coro, seus atores e sua própria companhia de dança. Então, me parece primordial que lutemos para que a educação seja prioritária em nosso país. Com isso, não só a cultura se beneficiará mas também o país como um todo.

Quanto à questão da Europa ter ou não mais espaço para coreógrafos emergentes, a resposta me parece óbvia: Sim, parece ter mais espaço, porém acredito que isto esteja relacionado com o fato de haver uma quantidade de companhias, cujo número não podemos comparar com a realidade brasileira bem como com um maior incentivo à cultura.

Por outra lado, é importante que se saiba que nem toda companhia apoia ou realiza atividades para que bailarinos que almejam coreografar possam exercitar suas aptidões. Existe direções que optam por terem no repertório criações próprias, e há muitas companhias que também parece enfrentar problemas relacionados ao cumprimento da agenda, etc.

Para você, existe uma cronologia específica de transição de bailarino para criador?

Não. Acho que existem várias possibilidades para um bailarino criar ou se tornar um coreógrafo. Alguns bailarinos criam junto com o coreógrafo; outros, ainda enquanto bailarinos, sentem mais propensão ou desejo para criar do que executar os movimentos o que irão descobrindo, muitas vezes, aos poucos; há alguns que nunca se imaginaram coreografando; há alguns que nunca se imaginaram coreografando, mas ao terem a possibilidade de o fazer descobrem um prazer e interesse imenso; também há aqueles que ao se confrontarem com o fato de terem que encerrar a carreira de bailarino passam a buscar uma alternativa profissional e descobrem na criação coreográfica uma opção.

foto: Antonin Michna - Daniela Severian em Le Sacre du Printtemps de Jean Reanshaw no Staatstheater Wiesbaden

Anos de experiência e vivências em diversas companhias deram a Daniela Severian o posicionamento das respostas acima, em sua trajetória performando repertórios clássicos, coreografias neoclássicas e contemporâneas a levaram a entendimentos mais abrangentes e profundos que vão além de um bom demi-plié ou battement tendú.

“Eu nunca acreditei em bailarino fora do palco”, revela Hulda Bittencourt diretora artística da Cisne Negro Cia. de Dança, incisiva, porém objetiva a fala de Hulda Bittencourt, pois é uma forma de aprendizado válido e eficaz. Severian conhece indiscutivelmente este ponto e a preciosidade de estar no palco, pois já esteve em muitos.

Em 1993 trabalhou como solista na “F. Bujones Brazil” companhia dirigida por Fernando Bujones em São Paulo. De 1994 à 2007 foi Bailarina Principal” do Staatstheater Wiesbaden, Alemanha sob direção de Ben van Cauwenbergh e de 2007 à 2008 sob direção de Stephan Thoss. De 1999 à 2000, trabalhou como Principal Artista Convidada no Aalto Theater Essen, Alemanha sob a direção de Martin Putke. E de 2001 à 2002, trabalhou como Bailarina Principal da CNB – Companhia Nacional de Bailados em Lisboa, Portugal sob direção de Mark Jonkers.

Igualmente, Severian por muitas vezes foi bailarina convidada das mais importantes noites internacionais de gala do mundo como: a "Gala des Etoíles" em Montreal, "The Stars of the 21st Century" em Nova York, Toronto, a "World Stars at the Opera" em Budapeste, em “Roberto Bolle and Friends” em Ravenna e Milão, "Tribute to Nureyev" em Bologna, “World Ballet Stars” em Donetsk e Kiev, e "Stars at the Opera" em Praga, entre outras. 

 foto: Ursula Kaufmann - Daniela Severian em Don Quixote no Allto Theater Essen

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Desde 2016 Severian é Bacharel em Dance Education pela faculdade de dança da Royal Academy of Dance de Londres, Inglaterra. De 2014 à 2016 foi maítre de ballet na São Paulo Cia de

Dança. Em 2016 trabalhou como maítre de ballet e ensaiadora da Cisne Negro Cia de Dança. Em 2017 Severian atuou como maítre de ballet e coach no Youth American Grand Prix – YAGP Brazil Summer Course.

Recentemente no Brasil, Daniela Severian abrilhantou os palcos do Teatro Santander e Sérgio Cardoso como bailarina convidada da Cisne Negro Cia. Dança no espetáculo H.U.L.D.A que homenageia a fundadora Hulda Bittencourt e comemora 40 anos da companhia assinado e dirigido por Jorge Takla, com coreografias de Dany Bittencourt e Rui Moreira.

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