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  • Cesar Dias

Entrevista - Ana Botafogo


foto: Ana Botafogo - retirada da internet

Falar de Ana Botafogo é o mesmo que referir-se à personificação da alma na dança e na tenacidade de uma carreira significativa, não só para Ana, mas para a dança no Brasil.

A primeira-bailarina e igualmente diretora do Balé do Theatro Municipal do Rio tem em seu currículo e trajetória feitos que não só a colocaram na posição que alcançou com muito esforço e dedicação, mas que igualmente demonstra o merecido posto auferido.

A bailarina iniciou seus estudos de dança em sua cidade natal, mas deslanchou profissionalmente no Ballet de Marselha, Ana Botafogo encantou primeiramente a França e consequentemente outras partes do mundo (Europa, América do Norte, América Central e América do Sul). Em sua estadia no continente europeu frequentou, igualmente, a Academia Goubé na Sala Pleyel, em Paris, a Academia Internacional de Dança Rosella Hightower, em Cannes a Dance Center-Covent Garden, em Londres.

Depois de tantas experiencias e vivências no exterior, ao retornar ao país da exportação de minério de ferro, açúcar de cana e café onde Ana Botafogo poderia dançar? O único lugar que poderia abrilhantar a estrela que já reluzia, era a principal casa de espetáculos do Brasil, um dos mais majestosos e belos prédios do Rio de Janeiro, considerado um dos mais importantes da América do Sul. Sim, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, a beleza arquitetônica eclética do teatro emaranhado com a suavidade, alma e dança de Ana Botafogo, uma relação que começou em 1981 e que perpetua até os dias de hoje.

foto: Ana Botafogo em "Giselle" - retirada da internet

A grande bailarina e agora diretora do balé do Theatro Municipal do Rio gentilmente aceitou o convite para dividir um pouco sobre suas experiências e percepção sobre a dança, Ana foi questionada sobre diretrizes de criação, coreografias e criadores de dança. 

Para você Ana, bailarina e diretora do balé do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, o que o coreógrafo quer quando cria uma obra?

Um coreógrafo procura primeiro que sua ideia e suas emoções sejam transmitidas através daquele corpo do bailarino. O bailarino é um instrumento, então sempre o coreógrafo procura ser correspondido por aquele instrumento que ele tem em suas mãos e depois, é claro, o bailarino precisa entender qual mensagem ele quer passar.

Alguns coreógrafos buscam através do movimento do corpo a beleza, harmonia e ligação dos movimentos, eles também querem transmitir algum recado ou as vezes instigar. Eu me sinto assim enquanto público. Quando assisto coreografias, algumas me instigam outras me incomodam e muitas vezes os coreógrafos contemporâneos querem mais do que instigar ou incomodar, eles querem provocar.

Há também os coreógrafos querem mostrar a beleza e as possibilidades que um corpo pode ter através da coreografia.

Tirando os grandes clássicos que já dançou, você já criou uma coreografia ou sempre foi coreografada? Se sim, qual foi a sensação de criar algo?

Na realidade - eu não sou coreógrafa - sou muito mais instrumento nas mãos dos coreógrafos. Crio personagens, crio possibilidades para personagens de coreografias que foram feitas para mim ou não. 

Agora, coreografar,  fiz poucas vezes e sempre para mim em algumas necessidades como solos e participação em galas. Cheguei a criar pequenas coreografias para mim. Fiz uma parceria com Marcelo Misailidis e algumas vezes nos coreografamos, estes momentos foram muito prazerosos. Marcelo é  um lindo e criativo coreógrafo, já dancei obras dele. Mas confesso que sou mais criatura do que criador.

foto: Ana Botafogo e Marcelo Misailidis em Romeu e Julieta - retirada da internet

Você tem acompanhado algum coreógrafo “emergente”? Se sim, consegue falar um pouco sobre sua evolução?

Um que eu acompanhei desde o comecinho foi o Alex Neoral que eu vi realmente crescer e amadurecer, acho que ele ainda está em busca de mais amadurecimento. Agora ele acaba de ganhar uma bolsa de estudos para Paris (França) onde vai passar seis meses estudando e se aperfeiçoando, e sobretudo vendo o que acontece na dança contemporânea europeia.

Como você enxerga o desenvolvimento da dança no Brasil?

O desenvolvimento da dança no Brasil veio a galope e isso eu posso dizer. Nós tivemos um crescimento muito grande “de uma safra de bailarinos” muito bons. Temos visto em vários concursos internacionais onde sempre os brasileiros são classificados nos primeiros lugares, com isso mostra que temos um bom ensino. Hoje em dia temos escolas e professores muito bons e que preparam a nível internacional esses bailarinos.

Temos uma gama, um número muito grande de bailarinos se formando e infelizmente não temos um campo de trabalho para todos eles, por isso, que uma grande maioria que se forma hoje em dia e que é um grande bailarino (a) acaba indo para o exterior, por falta de campo de trabalho aqui. No Brasil temos apenas duas companhias que fazem clássico, que é o Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a São Paulo Companhia de Dança e no mais temos só companhias contemporâneas pelo Brasil afora, sejam elas estatais ou particulares.

Temos uma gama muito grande de bailarinos se formando e infelizmente não temos um campo de trabalho para todos eles, por isso uma grande maioria que se forma hoje em dia acaba indo para o exterior, por falta de campo de trabalho aqui. No Brasil temos apenas duas companhias que fazem o clássico, que é o Theatro Municipal do Rio de Janeiro e a São Paulo Companhia de Dança e no mais, temos companhias contemporâneas pelo Brasil afora, sejam elas estatais ou particulares.

O desenvolvimento do Brasil tem sido muito bom mas precisamos cada vez mais de coreógrafos, e que esses coreógrafos sejam reconhecidos, uma vez que já temos o reconhecimento de bons bailarinos surgindo a cada ano.

A técnica e a precisão nos passos tem sido um mote no desenvolvimento da dança.. A precisão dessa técnica evoluiu muito. Precisamos estar alertas e nunca esquecermos da alma porque dança, seja ela clássica ou contemporânea tem o treino do atleta, mas tem que ter a parte da interpretação. Bailarino é ator e atleta, esse binômio não pode andar separado.

foto: Ana Botafogo em H.U.L.D.A (Cisne Negro Cia. de Dança) - retirada da internet 

Nas respostas de Ana Botafogo fica expresso a necessidade de sempre querer ir além e se aperfeiçoar, ainda mais com a evolução latente da dança, contudo o mais importante a ser ressaltado na plausível fala da entrevistada, é o entendimento da junção da interpretação com a fisicalidade, a alma com a precisão, o coração com a sincronia da dança. A veracidade das respostas da diretora do balé do Theatro Municipal do Rio se direcionam a lição de vida que a mesma compartilha aqui.

Porém a maior pergunta é: por que criar? Nesse sentido, mas não com essa pergunta, este questionamento sempre nos faz perder a noção do tempo e se aprofundar demasiadamente no que foi indagado, mas para se procurar uma resposta antes deve-se conceber a pergunta. E será que existe uma forma correta e única para problematizar sobre o que um coreógrafo quer quando coreografa? Não, pois quanto mais diferentes somos, mais interessantes ficamos.

Isto é, mais deveres mais sensações, nesse sentido o fascinante não é de fato responder ou tentar achar uma resposta correta para o que foi indagado, mas sim dançar e desfrutar de todas as respostas formando assim uma coreografia de saberes, experiências e aprendizados.

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