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  • Cesar Dias

Entrevista - Rui Moreira


foto: Rui Moreira - acervo pessoal do artista

Nascido na cidade de São Paulo, o coreógrafo, Rui Moreira, compartilha sua fala e ideias sobre a necessidade, e importância de se conceber espaços de criação para que bailarinos possam experimentar a arte de coreografar. O que começou com um bate-papo informal, se transformou em uma entrevista imprescindivelmente, suntuosa  e pertinente, onde ressaltou-se sutilezas de extrema importância para criadores emergentes. 

O paulistano teve em sua carreira momentos essenciais para a sua consolidação artística, e a construção

de sua história na dança. Hoje, o antigo paulistano ou atual belo-horizontino (radicado em Belo Horizonte desde 1984) é um dos coreógrafos brasileiros mais reconhecidos no cenário nacional da dança.

 foto: Calunga (2011) - acervo Cisne Negro

A trajetória memorável de Rui, foi consolidada pela estadia em importantes companhias ao longo de sua carreira "dançante", e posteriormente em certas como coreógrafo . O percurso se iniciou no final da década de 1970, com integração relevante no corpo artístico de companhais como Grupo Corpo (MG), Balé da Cidade de São Paulo e Cisne Negro Companhia de Dança (SP), Cie. Azanie (França/Lyon), e Cia. SeráQuê? (MG).

O coreógrafo similarmente já assinou obras para São Paulo Companhia de Dança, Balé Teatro Guaíra, Cia. de Dança do Amazonas, Balé Jovem do Palácio das Artes entre outras. Um artista criador com tamanha bagagem e experiência, obviamente tem muito a dizer e contribuir não só com suas obras, mas igualmente com sua fala e incentivo à criadores emergentes.

Você acha necessário criar espaços onde bailarinos possam criar suas próprias coreografias?

A meu ver, é imprescindível que haja espaços onde bailarinos possam criar suas próprias coreografias.  Existem várias formas de dançar e diversos são os motivos que provocam coreografias.  Por via de regra, as pessoas organizam sua própria dança a partir de suas experiências corporais, de suas emoções e utilizando gestos universais. São experimentações muito particulares onde se busca atender a apelos - sociais ou artísticos – onde o próprio indivíduo significa, contextualiza e atua.

Coreografias podem surgir de improvisos catárticos - espontâneos ou induzidos, mas depois ao serem repetidas e compartilhadas se transformam em partituras com materialidade explicita.

Em um espaço de exploração de processos criativos, é possível aprender, aprimorar e tecnicizar a capacidade de inscrever gestuais descritivos ou abstratos com sentido estético e ou poético. Daí, quanto mais espaços e oportunidades de radicalizar o exercício da criatividade individual, mais o artista vai se colocar disponível para a liberdade que a arte sugere. Outro ganho é o aprimoramento do olhar crítico sobre movimento dramatúrgico.

Para um coreógrafo é viável incentivar bailarinos que queiram coreografar? 

Eu acredito que as várias formas de incentivo que os bailarinos recebem durante um processo criativo independem do coreógrafo. Mas esse estímulo mútuo (criador e intérprete) só acontece de maneira profícua, se ambas as partes pactuarem esta troca.

Gosto de pensar que coreografia é a arte de criar trilhas ou roteiros de movimentos que compõem uma dança, e que o ato de coreografar é uma forma de desenhar ou organizar o espaço com o movimento corporal.  

O coreógrafo pode ser entendido como fonte geradora do movimento que será apreendido por um intérprete, mas também, pode ocupar-se na função de “facilitador” da materialização de subjetividades gestuais em função de contextos específicos.  Portanto é aquele que estimula criativamente o artista intérprete ou criador.

Em ambas as situações eu penso que bailarinos intérpretes, ou intérpretes criativos, ou intérpretes criadores, são incentivados a colaborar com a coreografia, pensando, sugerindo caminhos para compor textos ou para ajudar a solucionar as questões postas pela obra de arte.     

Em sua percepção como coreógrafo já reconhecido, existe uma cronologia específica de transição de bailarino para criador?

Não sei muito bem se existe ou não uma cronologia específica de transição de bailarino para criador – acho que depende muito da forma de criar escolhida dentro dos distintos processos.  No ato de dançar são legitimadas muitas formas de aculturamento corporal. É tão diversa a percepção das maneiras de dançar quanto são inúmeras as formas de criação. Por vezes um artista intérprete pode se tornar criador, mas há casos em que um especialista em alguma motricidade extraordinária ou com um conhecimento específico, seja ritualístico ou hereditário, mesmo sem nunca ter sido “bailarino”, pode conduzir o desenhar de corpos no espaço e até mesmo conduzir catarses de gesto coletivas.

foto: Azougue (2012) - São Paulo Cia. de Dança - Arnaldo J. G.

Espaços para se criar é fundamental não apenas como laboratório gestual, mas sim como um ambiente propulsor de pesquisas e autoconhecimento artístico, intelectual e emocional. Obviamente que para ultrapassar, ou até mesmo identificar se o bailarino expressa um desejo ou vacação para coreografar, só é possível após a abertura desses espaços ou da possibilidade. Rui, em sua fala deixa claro a importância e a necessidade de um ambiente aberto e propício para essa finalidade.

Um bailarino (quando solicitado) só consegue participar de uma criação coletiva/colaborativa quando pode contribuir significativamente para a obra, mas para que isso aconteça é fundamental que se tenha um espaço - que anteceda - para que se exercite a participação "colaborativa" em um processo coreógrafo. Um criador só terá ciência do seu potencial quando começar, a CRIAR. 

Atualmente Rui Moreira, encabeçou junto a Dany Bittencourt as coreografias do novo espetáculo -  H.U.L.D.A em comemoração aos 40 anos de funcionamento - da Cisne Negro Cia. de Dança, que ficará em temporada de 21 a 31 de abril no Teatro Santander, com roteiro e direção geral de Jorge Takla e direção artística de Hulda Bittencourt e Dany Bittencourt. A companhia já possui em seu repertório três obras consagradas do coreógrafo; Trama (2001), C/ Cordas (2005) e Calunga (2011). 

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